domingo, 23 de março de 2025

41 Fahrenheit

     Acordo no meio da madrugada com frio. É um dos invernos mais fortes das últimas décadas. Minha casa fica no topo de um pequeno morro, próxima a uma pequena reserva ambiental onde tem um pântano na parte mais baixa. Os termômetros marcam até 5ºC mas a sensação térmica é ainda pior. Por entre as lâminas de vidro da janela entra um vento muito frio e o cobertor não consegue manter o calor. Meus pés doem. As articulações do quadril, joelho e coluna doem. 


    Embora escuro consigo visualizar a bagunça do quarto. Ao lado da cama estão 2 puffs com roupas e caixas. Sinto logo atrás de mim o peso de mais caixas com objetos colecionados ao longo dos anos. Ao olhar para trás vejo o contorno de uma pilha de outras caixas de papelão como em um filme sobre o futuro distópico. Uma coleção de itens reminiscentes da época em que viveríamos bem tendo ainda o futuro pela frente. Eles me trazem a sensação de gozo frustro, como sementes inférteis da vida plantadas em solo árido. Com cuidado me viro sobre o colchão que já moldado pelo peso do meu corpo insiste em me jogar para fora da cama. Tento retirar os pés da direção do vento, enrolá-los mais na coberta para conter o frio e conseguir dormir. Em vão. 


    Em breve terei de levantar para ir trabalhar. O serviço fica na capital há cerca de 80 quilômetros. Assim preciso acordar na madrugada para chegar a tempo. Mas minha cabeça não consegue descansar. No andar de cima todos dormem enquanto vigio a gélida madrugada sozinho aqui embaixo. Situação que há muito já deixou de ser uma metáfora e se tornou uma declaração da minha condição familiar. Não há como evitar rememorar e constatar como o curso da vida mudou tanto em poucos anos nos trazendo até aqui. Idealizo por instantes viver no universo paralelo criado a cada escolha que moldou o caminho que nos trouxe até aqui. Então a realidade se impõe através de mais uma lufada de ar que se esgueirou pela janela. 

    Ao sair pela sala em direção ao carro ouço o silêncio estridente ecoando pela casa. Para eles minha presença é apenas o estertor de um eco frágil. O carro liga com alguma dificuldade embora mais preparado para o dia do que eu. No rádio a música me lembra "...Ninguém por perto, o silêncio no deserto..." e o piloto automático passa a conduzir veículo enquanto novamente divago. Dias e noites de solidão, sozinho ou acompanhado. Palavras de afeto escassas, friáveis, sucumbiram à menor brisa cotidiana. O cordão de isolamento semipermeável imposto à casa foi dia a dia se interpondo entre nós.  A distância ora imposta em proximidade foi lentamente amalgamada aos quilômetros da estrada que agora percorro em sentido inverso. Do rádio ecoa "...Me diga garota será a estrada uma prisão; eu acho que sim, você finge que não..."

    Mesmo após o sol nascer a neblina ainda cobre grande parte da paisagem. A música continua a embalar a viagem. Já não sei o destino final. Tenho dúvidas sobre o passado, alheamento no presente e um futuro possivelmente sombrio. Aperto o acelerador até o final esperando de forma pueril romper com a realidade, talvez provocar uma deformação do espaço-tempo que permita refazer alguns passos. Mas não existe essa possibilidade. O tremor do volante nas minhas mãos me lembra da fragilidade do automóvel nas condições reais. As luzes dos faróis oferecem uma alternativa que considero em vários momentos. Busco dentro de mim motivos para manter o curso e sigo em frente. 
  

        Já estou em meio aos carros no trânsito da cidade. O serviço em breve irá tomar minha atenção. E o que pensei e senti ficará dormente no meu subconsciente por algumas horas. Até o momento de voltar para casa onde vivo. Que jamais foi minha. Apenas moro lá. Temporariamente. E quando já não estiver ali meus dias se resumirão à procura da "...sombra do sorriso que deixei numa das curvas..." da estrada. 

Trechos da música "Infinita Highway" - Humberto Gessinger

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

A opressão do self


Espero que a Karina não tenha esquecido seu lanchinho

Foi preparado com amor e carinho

Nesse cotidiano cada vez mais mesquinho

É preciso um bilhete para se cuidar só um pouquinho.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Realidade alternativa

 


O curioso é que a história mostrada na série envolve tráfico de drogas, assassinato cometidos de formas variadas e diversos crimes previstos no codigo penal. Interessante que as vidas perdidas relatadas são em 99% dos casos de pessoas negras em condição de vulnerabilidade social. Entretanto o alerta é de que contém imagens de tabaco. E a violência travestida faz seu trottoir.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

domingo, 21 de janeiro de 2024

Quando a lógica de mercado supera a empatia

Nota do autor: Katrina foi um furacão que causou uma tempestade tropical atingindo o sul dos Estados Unidos. Seus ventos alcançaram mais de 280km/h. Ele foi o mais destrutivo e mais caro desastre natural na história dos EUA. O dano total do Katrina é estimado em 81,2 bilhões. Foi também o mais mortal ciclone tropical desde o Okeechobee em 1928.