domingo, 22 de fevereiro de 2026

A vanguarda do atraso

Nos últimos 10 anos o mundo experimenta um nostálgico olhar para o passado. Lembrar do que passou é importante, nos ajuda a construir e reafirmar nossa identidade e a evitar repetir os erros cometidos. Entretanto nossas reminiscências estão contendo diversas confabulações que acabam por distorcer o passado intensamente nos trazendo uma nova história. E baseado nessa miragem interpretamos o presente e traçamos planos para o futuro. Qual será a surpresa quando tudo piorar?


Com esse sentimento de que não é possível mais retroagir, obsolescer, somos surpreendidos pela situação noticiada acima. Fazendo desfilar na frente dos nossos olhos incrédulos a falta de limite da ignorância humana. Isso em um dos estados mais desenvolvidos do país. Imagine a situação nos rincões do país. A onda saudosista e reformista do passado trouxe junto de si a decadência de vários avanços sociais das últimas décadas. Aparentemente, em Minas Gerais, voltamos para o final do século XIX onde meninas eram "casadas" com homens vários anos mais velhos. Para cumprir sua função primordial na sociedade, de reproduzir sem causar problemas. 

Embora ainda possa continuar discorrendo por várias linhas vou publicar o texto logo, sem mais delongas. Receio que se não o fizer terei de datilografá-lo e enviar por carta para ser impresso por Gutenberg. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Notícias populares - Classificados

 Vende-se carro seminovo, conversível, pneus originais, cores vibrantes com discreta fala na pintura, pequenas marcas de uso na lataria. Chofer não acompanha. 


                                              Por Salvador Patranha para o Diário da InVerdade

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Ode ao meu perna esquerda

Esperei muito você chegar
Mesmo sem compreender bem o que estava acontecendo
Como um santo horticultor no último minuto me salvou 
Agora você está aqui, comigo, e anseio sua presença a todo tempo 
Apesar de não entender completamente o que estamos vivendo
Sei que o laço que nos une é eterno
Mesmo sem saber o que virá

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Diário da balança # 16: 129 (+3)

      Já faz um bom tempo que não escrevo aqui. Mas como dizem por aí o mundo é redondo e dá voltas. Assim como eu. Após a reunião frustrada nos Vigilantes do Peso - expressei mal minha adicção por Coca-Cola e acabei nos Narcóticos Anônimos. Entretanto quando a vida te oferece limões o que se faz? Usa a cocaína para fazer crack e emagrecer. Todavia minha família ficou preocupada quando passei a morar em um lote abandonado após perder o emprego e minha esposa sair de casa. Mas ninguém pode negar que estava magérrimo. 

     Depois de um tempo em uma clínica de reabilitação consegui largar o vício e estou refazendo minha vida. Infelizmente o que refiz primeiro foi minha reserva de gordura. Com o tempo consegui um novo emprego e fui refazendo alguns laços possíveis após o que houve. Estava me sentindo bem apesar do peso elevado novamente. Crendo que tudo estava normal de novo como alguns anos atrás. Só que o "peso" da idade - desculpe o duplo sentido - começou a aparecer. 

     Uma nova atendente da padaria na esquina de casa puxou assunto por conta da estampa de uma blusa que estava vestindo e começamos a conversar toda vez que ia comprar o lanche da tarde. Uma coisa leva a outra e marcamos de ir ao cinema. Tudo correu bem e ela me convidou para comer na casa dela. Como já estávamos conversando há muito tempo já havia muita intimidade então pode-se dizer que foi mamão com açúcar.  

     Ao acordar no dia seguinte estava me sentindo até mais leve, metaforicamente. Mas a sensação de felicidade logo foi substituída por desespero. Ao me virar para levantar da cama senti uma dor intensa na batata da perna direita que se contraiu em uma violenta câimbra. Com o membro fletido em intensa agonia tentava esticar a perna para desfazer a dolorosa contração. Foi quando senti dores na lombar e, devido à tentativa de vencer o volume abdominal que se colocava entre minhas mãos e a perna direita, fiz força apoiando minha perna esquerda no colchão. Imediatamente a batata da perna esquerda também começou a ter câimbras. Com as duas pernas flexionadas pelas violentas contrações musculares espasmódicas pairando no ar, sem conseguir dobrar o corpo para frente pela dor lombar, sofri gemendo e me balançando como uma tartaruga obesa virada de pernas para o ar.

     Passado um tempo as câimbras se resolveram espontaneamente mas deixando lesões musculares que doíam ao mínimo movimento. Finalmente, com muito cuidado para também não agravar a dor na lombar, consegui sentar na cama. O erro seguinte foi tentar levantar. As dores conhecidas foram suplantadas por intensas dores nos quadris que não suportaram o peso do corpo fazendo com que caísse no chão. Pego desprevenido não consegui proteger o rosto e bati a boca cortando meu lábio inferior. O sangue começou a escorrer e acabei tossindo pois engasguei. Tentei me levantar mas o combo de dor não permitiu que me movesse. Ao menos estava em cima de um desses tapetes de pelo fofinho. Foi então que relaxei e acabei urinando ali uma vez que chegar ao banheiro naquela hora era tão improvável quanto pousar em Marte.    

     Obviamente tive de mudar de padaria. Imagine a cena. A donzela que havia saído pé ante pé para ir até à padaria para fazer um belo café da manhã em homenagem ao seu príncipe Encantado encontra na volta um cenário de programas policiais. Sangue espirrado no criado e no chão, o tapete manchado em cima de vermelho e embaixo amarelo. E um volumoso corpo inerte nu. Após o susto inicial e de provavelmente começar a pensar formas de se desfazer do corpo (haja mala e saco de lixo para esquartejar e carregar tanta corpulência) ela percebeu que estava vivo e me ajudou a levantar. Perguntou se precisava de ajuda, se queria ir ao hospital mas apenas queria sair de lá. Por isso fiquei atônito ao encontrá-la na padaria mais distante de casa. 

     Ela disse Oi e eu não disse nada. Tentei mas a voz não saiu. Como não houve resposta ela continuou. Disse que ficou preocupada com o meu sumiço e que passou a ir comprar pão nas outras padarias tentando de me encontrar. Acho que ela pensou que eu tinha ficado com alguma sequela pois só consegui falar depois de uns dois minutos de silêncio. Me desculpei e a partir daí retomamos a conversa. Hoje ela virá aqui em casa - achamos melhor pois ela havia acabado de conseguir arrumar a casa e trocar o tapete. O interfone toca, é ela. Peguei o comprimido e engoli com água rapidamente. Percebi que não sou mais jovem vou me precaver para não falhar. Santo diclofenaco. 

Alexandre, o graaaaaaaaaaande. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

luz e SOMBRA

No meio da tarde a sala está na penumbra. A cortina com blackout cumpre bem seu papel mantendo o sol fora da casa. Espalhados pela mesa, sobre o rack e no aparador brigam por espaço o passado e futuro, o descartável e o que será guardado, lembranças a serem esquecidas sem mesmo terem sido experimentadas. Me levanto com dificuldade do sofá manchado. Por ser muito baixo e profundo sempre preciso me apoiar no braço para conseguir ficar de pé. O restante do apartamento também está escuro pois as portas dos quartos estão fechadas. E atrás delas as janelas também se mantêm fechadas há dias. Caminho em direção ao quarto que está com a porta aberta. Ele está escuro, quase como a noite. A cortina foi feita mais forte do que a da sala. O cenário aqui é bem parecido, onde uma grande caixa de papelão com roupas não usadas há duas décadas faz companhia à memorabilia puída e aos papéis cheios de boas intenções dobrados. Não há saída possível aqui, apenas junto a Morfeu e seus Oneiros. Sinto um toque suave no ombro me direcionando e a cama desarrumada me recebe como um útero ao embrião.