quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Bolsa - Eu

     Primeiro era uma gentileza. Um ato cortês que por vezes enrubescia a face de uma senhora mais tímida ao cavalheiro ceder seu assento no ônibus. Depois vieram os embriões do mal vindouro: as cadeiras cativas para idosos, gestantes e pessoas com incapacidades temporárias ou permanentes nos coletivos. E foi assim que um sistema de segmentação foi implementado na sociedade brasileira.
     O problema é que éramos melhores quando não existia a obrigação de ceder aquele espaço. Hoje temos dois principais tipos nos coletivos: os sociopatas, que se sentam nos lugares claramente indicados como preferenciais mesmo se uma gestante está de pé ao seu lado; e os ressentidos, que não cedem lugar de forma alguma, mesmo se ao seu lado estiver uma idosa de muletas segurando um bebê,  uma vez que já existem lugares previamente cedidos pela lei. 


     Embora os dois primeiros parágrafos possam parecer um pouco extremistas, insensíveis ou mal educados, na verdade são uma manifestação mista de desânimo e resignação. Desânimo pois o sistema de bolsas, cotas, reservas e etc. não necessariamente resolve a questão a que se propõe e é usualmente baseado em preconceitos. Resignação por ser da minoria sem direito, melhor dizendo, com o direito de ter de sustentar o sistema sem me beneficiar dele.
     O preconceito envolvido no sistema de cotas em universidade ou serviço público é evidenciado por assumirmos de cara limpa que uma parcela da população não é/será capaz de concorrer de igual para igual com a parcela antes vista como privilegiada. Então criamos um atalho no percurso da corrida que só será usado pelos competidores que forem negros, índios ou azuis - enfim, qualquer segmento que se queira beneficiar - porque se não os pobrezinhos não conseguirão competir em igualdade.
     Coitadinhos, são tão incapazes de viver por sua conta que eu, vamos chamar de aristocracia brasileira, muito bondosa, crio mecanismos para ajudá-los. Ajudá-los? Ela legisla em causa própria. Isso me lembra a justificativa de que os negros da África poderiam ser escravizados por não possuírem alma no início da expansão marítima. Ao fazer o bolsa-gás, bolsa-família, bolsa-cultura, cotas para negros ou alunos provenientes da rede pública, a aristocracia vigente consegue aumentar seu curral eleitoral e se perpetuar no poder. Ou será coincidência a mudança de padrão de voto da direita conservadora para a esquerda mão aberta no norte e nordeste do país, maiores beneficiados pelos programas assistenciais estatais, agora em peso com Lula, Dilma e o PT, mas que antes nos presentearam apenas com Collor, Sarney, Calheiros... e agora além de manter tais pérolas no senado ainda dão suporte a nossa sinistra ditadura velada de governo do povo.


     Já a minha resignação tem a ver com o fato de, enquanto jovem, branco, proveniente da classe média e com bom nível educacional, ter de sustentar todo o sistema de privilégios a várias fatias da sociedade com os cerca de 37% de impostos que o governo retira do meu trabalho sem ter direito a nenhuma contrapartida. Isso ocorre desde a minha infância, pois meus pais - que sempre pagaram impostos - tiveram de por a mão no bolso novamente para que eu estudasse em uma boa escola, tivesse uma assistência médica adequada quando necessário, dentre outras despesas em duplicidade com as quais arcaram por ineficiência do estado em prover o que propunha ao receber o dinheiro deles.
     Hoje percebo que vou trilhar caminho semelhante ao dos meus pais, arcando com os impostos e com despesas particulares para cobrir as carências nos serviços que o governo se diz obrigado a prover, cobra alto por eles e simplesmente não cumpre com suas obrigações. A diferença é que agora sustento também vários pequenos segmentos da sociedade que o governo elegeu como interessantes para angariar seus votos também, não somente meu filho. E sem direito a nenhuma contra partida, perdendo ainda o direito de concorrer de forma igual a cargos públicos ou vagas em universidades.

     Enfim, venho por meio deste texto solicitar a criação de uma vaga especial em uma cota do governo. Uma bolsa, quem sabe uma pochete. Ao menos um assento no ônibus. Qualquer benefício que sirva como a cenoura na frente do burro que puxa a carroça pra frente. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Adeus 2012


                                           O grito - Edvard Munch, 1893

sábado, 8 de dezembro de 2012

Diário da balança #4: 116(+2)

Ok, eu confesso: dei uma desanimada. Após o ganho de peso na última pesagem chutei o balde. Resolvi aceitar quem sou e tentar viver bem comigo, mesmo que em uma versão plus size. Olhando pelo lado positivo, há mais de mim para amar. Foi uma experiência libertadora. Caminhava mais leve. Até que li essa reportagem e percebi duas coisas importantes. A primeira é que eu achava que andava mais leve devido a redução de sensibilidade no pé causada pela compressão dos nervos. E também que deveria me mexer e voltar para o regime. 
Alexandre, o graaaaaaaande.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sobre traquinagens e roupas limpas

     Os pais de Adolfinho estavam com um problema: o filho havia aprendido a ajudar nos serviços domésticos. Começou no dia em que ele deixou cair suco na mesa e rapidamente limpou com o guardanapo, mais por medo da repreensão do que por qualquer outro motivo. De qualquer forma, o ato foi interpretado como uma visível evidência de maturidade da criança, e lhe rendeu vários elogios além de um passeio a sorveteria.
     A partir de então ele se tornou preocupado com a organização e limpeza da casa, obviamente para ganhar mais agrados. Alguns dias depois, após vários talheres com restos de comida serem encontrados na gaveta, terem recolhido um saco de ração de cachorro espalhado pelo chão, catar os cacos dos vários enfeites quebrados ao retirar poeira e tomar uma refrescante limonada preparada com água da torneira e adoçada com sal, seus pais resolveram pedir para o  menino ajudar apenas guardando seus brinquedos depois de brincar.
     Entretanto algo havia se modificado na personalidade de Adolfinho. Ele gostava de ajudar. Se sentia importante. Assim, continuou "ajudando" em casa mesmo sem a solicitação parental e, como começou a ser repreendido, passou a fazer suas boas ações escondido. Desta forma, alguns documentos que estavam sobre a mesa foram amassados e jogados no lixo, colheres lambidas e devolvidas as gavetas, pias limpas com escovas de dentes.
     Algum tempo depois o chefe do pai de Adolfinho o convidou para jogar baralho em sua casa. Após muitas recomendações de comportamento no carro chegaram e os adultos iniciaram o jogo. Adolfinho leu as revistinhas e brincou com os bonecos que havia levado, assistiu desenhos e logo se entediou. Saiu brincando de explorador pela casa e, como o planeta visitado possuía fauna muito hostil, prossegui em silêncio se esgueirando pelos cantos sem ser visto pelos gigantes com mãos achatadas que se reuníam em um ritual tribal na sala. A brincadeira o levou ao banheiro e seus olhos brilharam quando ele viu o cesto de roupa suja quase transbordando...
     Finalizado o jogo os adultos agora procuravam por Adolfinho e, ao abrir a porta do banheiro, o viram colocar o último vidro de shampoo no vaso onde as roupas estavam de molho. 

sábado, 24 de novembro de 2012

Por quê(m)?

Quantas vezes justificamos nossas escolhas e ações pelo bem de outra pessoa. Quantas delas de fato serão verdade? Quais serão na verdade decisões tomadas em meu benefício e somente banhadas em altruísmo? Nem sempre é fácil perceber. Muitas vezes estamos inconscientemente escondendo nossos medos atrás do bem fazer ao outro.

domingo, 28 de outubro de 2012

Gengivite causa mais que mau hálito

     Constantemente me surpreendo com a capacidade das pessoas em enxergar apenas o aspecto imediato da vida. Como exemplo vamos ver parte de uma peça publicitária que vem sendo veiculada atualmente.




     Só um pequeno detalhe: gengivite leva a doença periodontal, principal causa de perda dos dentes. Vou colocar em caixa alta: DEPOIS DO MAU HÁLITO VOCÊ PERDERÁ SEUS DENTES, É, VAI FICAR BANGUELA!!! É claro que mau hálito incomoda, mas cá entre nós, uma balinha já ajuda. Já ficar sem os dentes...
     No entanto não estou dizendo que é uma propaganda ruim. Pelo contrário, é uma excelente forma de marketing. Apela para o imediatista que vive dentro de cada um. Ninguém quer perder os dentes mas esse é um perigo para daqui alguns anos, o "bafo" está aqui agora, é o que incomoda no momento. Então o publicitário explora este aspecto, porque sabe que a maioria de nós vive a apagar incêndios e não a prevení-los. Dos dentes cuido depois, não posso é sair com esse bueiro para a balada!
     Então aqui vai o meu conselho para você matar dois coelhos com uma preguiçosa cajadada: use chiclete.