segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ninguém morre às 4:17?

É mais cômodo ver a vida como uma série de variáveis dicotômicas. Durante a infância ela nos é apresentada desta forma mais concreta. Sim ou não. Mocinho ou bandido. Preto ou branco. Direita ou esquerda. Mesmo em variáveis categóricas há sempre uma distinção muito evidente entre as opções. Pode ser sangue A ou B ou AB ou O. Pode ser branco ou pardo ou negro...

A continuidade da vida assusta por nos apresentar situações controversas e complexas, muito mais difíceis de julgar, opinar ou decidir.

Bem vindo a vida adulta.

domingo, 30 de novembro de 2014

Cenas da vida - corredor do supermercado

     - ...mas acabou que eu precisei estudar e a gente foi reduzindo o tempo de ensaios até que a banda acabou. Depois eu fui aos poucos parando de tocar e já se vão cinco anos que não pego o violão. Não sei, faz falta mas eu não consigo. Enfim, comecei a pintar, fiz um quadro baseado num sonho que tive e outro que dei pro vizinho, agora não estou pintando mais, sabe como é, falta de tempo. Mas vinha escrevendo regularmente no blog e depois nessa atribulação toda acabei parando, mas tenho vários textos que quero publicar, falta só sentar e fazer e...porque estou falando isso mesmo?
     - Eu disse "como vai?"

sábado, 27 de setembro de 2014

Diário da balança # 12: 114 (+1)

Fui pesar e quebrei minha balança do banheiro. Tive de sair e procurar alternativas...
 Alexandre, o graaaaaaaaande.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sacolão



   Osvaldo tinha 42 anos e havia acabado de se separar da esposa. Nunca antes precisou cuidar de afazeres de casa. Primeiro a mãe, depois a esposa se encarregaram disso. Funcionário de um banco, zagueiro firme nas peladas e possuidor de opiniões firmes sobre financiamento estatal a ONG´s, agora era apenas um homem de meia idade perdido no corredor de frutas do supermercado confuso com duas laranjas na mão sem saber o que fazer depois. Foi quando Helena ficou com pena dele e veio em seu socorro.

   - Precisa de ajuda?

   Ainda um tanto perplexo ele demorou um pouco para responder. Em parte por se assustar com a beleza de Helena. Mas também por ainda estar intrigado com o mistério em suas mãos. 

   - Como eu sei se a laranja está boa?
   - Se a casca tiver lisa e a laranja firme ela vai dar muito suco.

   Era um acontecimento inédito para Osvaldo. Ser abordado por uma bela mulher dessa maneira. E melhor ainda -  o ajudando em uma atividade doméstica. Ela escolheu as laranjas e se ofereceu a continuarem as compras juntos. 

   - As folhas que estão amareladas, com pequenos furos e pontas queimadas estão ruins. 

   Foram conversando coisas sobre onde nasceram, qual faculdade frequentaram e até descobriram algo em comum: filmes do Woody Allen e peteca. Uma pequena tensão sexual foi crescendo entre eles e se tornou óbvia após a sugestão de Helena na sessão de temperos.

   - Malagueta pra esquentar as coisas - era meu apelido na escola...

   E então não parou mais.

   - Tem que palpar os melões e sentir eles bem firmes.
   - Quando você passa a unha de leve no pêssego sente os pelinhos e o cheiro bom.
   - A cenoura tem que ser firme, com a superfície lisa e as médias são as melhores. 

   Nessa hora ele teve certeza - Helena estava no ponto.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Terceira Convenção de Genebra ou um relato de sobrevivência

Fade in. Interior de uma livraria moderna, dessas que tem cafeteria e tudo. Uma pequena aglomeração de pessoas aguarda pelo início da sessão de autógrafos. É uma noite temática. Livros escritos ou sobre mártires de diferentes épocas. Biografias de Gandhi, Mandela e Tiradentes aguardam autógrafos. Em um dos stands assino na contra capa do livro sobre minha sobrevivência a tortura durante a última consulta odontológica. É quando acordo suado em minha cama no meio da madrugada. Foi apenas um sonho? Para me certificar passo a língua na gengiva que ainda acusa o golpe.

***

Já fazia um tempo que não visitava o dentista. As coisas iam razoavelmente bem então fui postergando. Um discreto desvio em um dente incisivo pode ter seu charme. Ou pelo menos facilitar o reconhecimento após um acidente de avião.  Mas as coisas começaram a mudar quando meus dentes começaram a apresentar muita sensibilidade a alimentos frios e mais consistentes. Depois aos quentes. E, finalmente, a qualquer coisa que colocasse na boca - certa vez acho que até um pouco de saliva fez meu incisivo lateral doer, numa adaptação ao "só dói quando respiro". Resisti bravamente, lidar com a dor nos torna mais tolerantes e estava precisando começar um regime e comer menos mesmo. Até que não teve jeito e a despeito de meus argumentos minha esposa Brígida agendou uma consulta. 

***

 Evitava pensar na futura consulta. Tal como fazemos com a morte. Até que o fatídico dia se apresentou. Talvez quase tão ruim quanto o dia da consulta foi a véspera. Ansioso, observava as janelas e traçava rotas de fuga. Cheguei a subornar a secretária do dentista para que ela tirasse fotos do consultório para estudar melhor o adversário. Não deu certo. A noite Brígida disse que iria comigo pela manhã e discretamente guardou as chaves do meu carro e minha carteira em sua bolsa. Não consegui dormir durante a madrugada e pensei em fugir a pé. Quem sabe conseguir uma carona com um caminhoneiro e deixar o país pelo pantanal. Mas ao menor rangido da cama quando fui levantar ela acordou e disse # Vamos começar a nos aprontar!

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O consultório não era amedrontador. Devo confessar que o conhecimento prévio por meio das fotos ajudou no autocontrole. Sei que todas aquelas fotos de gente feliz com dentes brancos e retos além dos quadros de uma bucólica natureza na verdade não passam de um disfarce e... a dentista chama meu nome com um sorriso no rosto dizendo # Bom dia Eric. Vamos começar? - como todo bom torturador do DOPS. Me levantei e entrei no consultório. Ouvi a porta batendo e continuei andando. # Onde você vai? (ia em direção a janela - 5 andares nem é tão alto). É melhor sentar aqui na cadeira. Mas ao sentar não me senti nada melhor. Pelo contrário. Era como se estivesse sentado em uma cadeira elétrica, só esperando ligarem a energia. O babador me sufocava. E a tortura começou com um jato de água areiante nos dentes e o troço de sugar pegando na bochecha. Senti que ia vomitar mas resisti. Achei que estava indo até bem quando ela pegou uma pequena britadeira e começou a demolir minhas gengivas. A cada estocada subia um pouco na cadeira até que em certo momento estava pendurado no encosto da cabeça como um papagaio de pirata. Tentava em vão defender minhas gengivas com a língua que ficou em carne viva. O sugador tinha dificuldade de drenar minha saliva engrossada pelo sangue. Tentava resistir e lutar mas a perda de sangue foi me enfraquecendo e quando ela começou a arranhar meus dentes com aquele ganchinho já não oferecia resistência. Estava entregue ao seu sadismo. 

***

Isso agora já é parte do passado. Já houve a anistia e torturados e torturadores convivem na mesma sociedade. Penso no Eduardo Moscóvis para interpretar meu papel no cinema.