sábado, 16 de março de 2013

Sobre declarações e relacionamentos

     Adolfinho estava com um problema: uma menina da sua rua gostava dele. Tudo começou em um aniversário de outra criança da vizinhança quando Paloma o viu pela primeira vez. Para onde ele fosse ela ia atrás carregando uma boneca com cheiro de morango. A brincadeira que ele começava ela queria participar. Ele foi ficando nervoso e resolveu se esconder por um tempo. Entrou no banheiro e lá ficou por cerca de uma hora - o que para crianças é quase uma eternidade - ouvindo os gritos e comemorações dos que brincavam lá fora. Passado este tempo resolveu sair. Abriu a porta devagar olhando pela fresta para tentar identificá-la antes de ser visto. Com o campo livre saiu e deu de cara com ela que o esperava atrás da porta e disse com um sorriso banguela #Tô qui pelano ochê!# 
     Depois dessa festa a vida social de Adolfinho se complicou. Em todas as brincadeiras com as crianças da rua ele encontrava com ela que não desgrudava dele. Chegou a receber uma cartinha dela (que para ele foi mais como uma ameaça de morte). E sua mãe sempre os vendo juntos achou que uma grande amizade se formava. Acabou ficando amiga da mãe da menina, indo toda semana conversar com ela, enquanto as crianças brincavam - leia-se Adolfinho corria e Paloma com sua boneca iam atrás. 
     O cúmulo para o menino foi quando no início do ano seguinte, ao chegar na escolinha, deu de cara com ela e sua mãe, que a havia mudado de escola para ficar na sala do amiguinho. Agora ele não tinha paz. Sua professora foi informada pelas mães da amizade e colocava os dois juntos para todas atividades, de mãos dadas nas filas para deslocamentos dentro da escola, para lanchar juntos e etc. Conformado Adolfinho não resistia mais. Já até tinha um pouco de cheiro de morango também. Fazia o que tinha de fazer com Paloma esperando uma brecha na atenção dela para escapar e brincar livremente. E em uma dessas escapadas se meteu em uma enrascada. Dois meninos da série acima de Adolfinho resolveram tomar seu brinquedo e ele preso em um canto resistia. Foi quando Paloma apareceu e acertou os meninos com sua boneca os espantando. E Adolfinho começou a enxergar os prós da sua relação. 

sábado, 2 de março de 2013

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Estava chegando o dia de seu aniversário e o menino estava ansioso. Sua mãe havia prometido uma grande festa. E era apenas esse seu assunto. Um dia, ao pe do sofá do avô ele perguntou #Vô, o senhor vai na minha festa?# Eventos sociais não eram exatamente seu forte, então o avô com seu jeito brincalhão distraiu o neto e evitou a resposta. Nesta época ele passava por suas dificuldades e ainda não havia encontrado a trilha para sua dúzia de passos. No dia do aniversário o menino esperava ansioso a chegada dos convidados. Das crianças pelas brincadeiras. Dos adultos mais pelos presentes. Mas nesse dia algo mudou nesta forma de sentir/pensar. Seu avô não chegou a tempo de cantar parabéns. A bem da verdade, no final da festa ele ainda não havia chegado. O menino ficou triste como se uma das crianças que ele aguardava para brincar tivesse faltado. E antes de dormir, já na cama, sua mãe entregou uma nota de dez mil cruzados e disse #Esse é o presente do vovô. Ele não apareceu porque machucou a cabeça no carro quando vinha pra cá, mas está tudo bem. Amanhã vamos vê-lo.#

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Cenários # 3

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Enquanto manobra o caminhão para descarregar os produtos no armazém Yan não vê no retrovisor a parede se aproximar. Vê seu rosto apreensivo pela culpa. O som dos pneus é quase ensurdecedor.

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No caixa o movimento de passar os produtos pelo leitor de código de barras é hoje executado com maior automatismo que o usual. Embora tenha ido ao trabalho Gilvaneide ainda está com a cabeça no hospital onde sua mãe está internada no CTI. Ela foi acordada no início da madrugada pelo telefone tocando. Uma assistente social com a voz monotônica a avisou que sua mãe estava lá e que ela deveria comparecer assim que possível. 

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No leito onde Joana está acomodada há vários instrumentos médicos, tubos que drenam sangue e ar dos pulmões, cateter na bexiga para medir sua diurese, drenos abdominais, fixadores para o fêmur fraturado, acessos venosos que infundem soro, medicações para manter sua pressão e antibióticos. Não há espaço para ela. É apenas mais uma paciente em choque após um atropelamento.

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Apesar de estar manobrando seu caminhão a uma velocidade muito baixa Yan sente o vento e o suor frio que percorreram seu rosto na noite anterior. A adrenalina correndo nas veias acima da velocidade apontada pelo velocímetro. Ele não percebe que está já bem próximo ao muro.

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A cada novo cliente na fila Gilvaneide sente o pesar da espera. Não pode sair antes do trabalho pois já havia faltado ao serviço duas vezes neste mês para acompanhar seu filho na UPA por causa da asma. O gerente avisou que mais uma falta e seria demitida. O seu salário é a única fonte de renda da casa. Ansiosa, passa rapidamente as compras com vontade de correr ao hospital.


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 Como se flutuasse em gravidade zero em um plano de existência paralelo ao nosso Joana escuta distante as vozes dos profissionais que a assistem. Quase ensurdecedor é o gotejamento do soro que a impede de perceber claramente o que esta a sua volta. Entretanto, gradualmente, o gotejar vai se transformando no ruidoso som da cachoeira que ficava na fazenda onde foi criada. E de repente ela estava lá na beirada do rio com os pés molhados, ouvindo os pássaros, e não prognósticos.

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Yan desceu da cabine do caminhão sem saber o que iria fazer. Em sua distração acabou acertando a traseira do caminhão em um muro e o derrubou quase ferindo um criança que brincava no quintal de sua casa. Ela chorava e seu reflexo foi ir de encontro a ela para confortá-la. Entretanto ao olhar no seu rosto enxergou o rosto da mulher que atropelara e não se conteve. E chorando copiosamente foi consolado pela menina.

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Além da velocidade agora Gilvaneide imprimia também sua raiva ao passar os produtos pelo caixa. Raiva por suas dificuldades financeiras, por ter sido abandonada pelo companheiro quando descobriu estar grávida, pelo emprego que executava sem gostar e que rendia pouco, a asma do filho e finalmente o acidente da mãe. Quando uma cliente começou a retirar itens já cobrados para diminuir a conta ela não aguentou. Sem dizer nada se levantou e saiu do supermercado a caminho do hospital. 

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Joana estava tranquila naquela ambiente familiar. Se sentia segura. Mais que isso, finalmente em paz, depois de muito tempo. A etereidade do vento que sopra no seu rosto, da água refrescante que molha nos seus pés, o cantarolar dos pássaros que a cercam só aumenta. Aos poucos o ambiente vai se tornando saturado de uma luz branca que dificulta a individualização do seu entorno. Já não conseguia nem mesmo perceber onde ela acabava e começa o resto. Fazia parte do todo agora. 
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sábado, 2 de fevereiro de 2013

348




Duas vezes por semana ele ia à casa dos avos. Lá se divertia. Sempre havia algumas moedinhas no bolso guardadas para os netos. Cada um tinha seu apelido na linguagem própria do vô que divertia a todos. Em um grande quintal com árvores e animais de estimação passava essas tardes.  Por vezes o explorava como um pirata, sem camisa e com uma espada de ripas de caixa de uva feita pelo avô. Fazia experimentos com tintas, óleos e querosene da velha gráfica no fundo do quintal. Dirigia caminhões em cima das máquinas, desenhava em papéis de variadas cores e texturas. Sentado ao pé do sofá assistiam jogos de futebol enquanto almoçavam. A cada visita experimentava frutas diversas, direto do pé. Mangas, jambos, abacates, morangos e uvas.  E o carinho e cuidado de quem cuidava dos netos como quem rega uma muda torcendo para que pegue.